3.11.06

"O Rio de Janeiro continua lindo..."

...e eu vou lá matar a saudade da minha cidade, da minha gente, da minha vida ... até de repente!

2.11.06

Calaveras


Sua sombra, toda feita de luar e vendaval, abraçou a sombra minha.
Restos de estrelas tentavam iluminar minhas saudades de você.
Sombras e restos.
Sobras e rastros.
De negror iluminado se fez a noite da ausência.

No México não se chora pelos mortos. Os "muertitos" chegam no dia primeiro de novembro e podem passar um dia com os parentes vivos. São buscados nos cemitérios e guiados até as antigas casas por caminhos de pétalas e luzes e lanternas de velas. Os pratos prediletos, os enfeites, os aromas, os jogos e até os vícios do morto são lembrados nesta data. Uma alegre celebração da vida.

Imagem: Renan

31.10.06

"O que é que a gente não faz por amor?"*



É, o porteiro me entregou o telegrama, liguei pra sua mãe, ela disse que a situação tinha melhorado. A velha está bastante resfriada, afônica e tosse sem parar.Lembra daquele xarope caseiro que a Teresa fazia, lembra? Colhia o agrião na horta do fundo do quintal. Construíram um espigão naquele terreno de trás e a horta foi pro brejo.
Sua mãe me contou que a Kika pariu. Imagina, oito filhotes de uma vez, a pobrezinha. Até hoje ela late quando escuta o Frank Sinatra. Não, André, a Kika late, embora sua mãe pudesse fazer isso muito bem. Pediu licença várias vezes para ver se tinha algum filhote fora das tetas. Bem a cara dela. Até hoje ela acha que você está pendurado nas muxibas velhas, ô velha filha da puta.
É, meu filho, quem sai aos seus não degenera.
Espera, não desliga, ainda não terminei. Não disse ainda o motivo dessa ligação. A porra do telegrama. Que merda, André, você pensa que eu cago dinheiro?
Sei.
Mas é mesmo, reconheça ao menos uma vez na vida.
Porra André, que saco.
Ligasse a cobrar, cacete. Telegrama? puta merda, André, a gente recebe telegrama e, se não estiver casando, só pensa em desgraça, é que nem telefonema no meio da madrugada.
Eu sei, porra, mas o quê você quer que eu faça? De o cu na zona? Num ta valendo nada, não, você já gastou as minhas pregas. Que isso o quê? Falo sim, falo quanto eu quiser, não sou uma maquininha eletrônica de esquina onde você enfia e saca, enfia e saca, enfia e saca.
Pára, cacete.
Vai falar putaria pra tua mãe. Ou pras vagabundas que você deve estar fodendo aí nesse fim de mundo.
Quem? Eu?
Vai mentir pra puta que te pariu.
Tá, desculpe. Lembro. Foi em Cabo Frio, carnaval de mil novecentos e antigamente. Sarongue, pareô , sei lá o nome daquela porra. Claro que lembro. Eu nunca tinha ido à praia de madrugada. Entrado na água pelada. Chupado pau salgado, com gosto de mar...
Ai, André, que loucura...
Eu também, muita.
Também te amo, repete o número da sua conta, vou depositar.

*verso da canção Bem que se quis, de Pino Donatello, versão de Nelson Motta, gravada por Marisa Monte

Imagem: Max Ernst

A todas as "bruxas"


Jai Durga, Lakshmi, Sarasvati
Sai Jagan Matha
Man Pahi jagan Matha
Om Mani Padme Hum
Durga, a Mãe restauradora, aquela que mantém a ordem no mundo. Lakshimi (imagem), deusa da prosperidade e Saravasti, deusa da sabedoria.

29.10.06

Procura-se




A um monte de barro ela deu a forma de um homem.

Com cuidados e gentilezas e por tantas madrugadas. Esculpiu palavras e gestos. Modelou ternuras e afagos. Viu surgir a cada cinzelada a forma perfeita, do tamanho de seus sonhos.

Amoleceu com lágrimas as resistências ainda brutas do primitivo, permitiu que o sol secasse os talhos errados e os transformasse em marcas de uma verdade que ia muito além de todas as certezas.


Numa noite de sacros ofícios pagãos rogou aos deuses que lhe dessem vida e vida os deuses lhe deram.

Estendeu-se toda e muito cansada pro abraço, afinal. Ele era ainda e pra sempre uma estátua de barro.

Esquecera de pedir aos deuses que lhe dessem um coração.

Imagem: Leonor Fini