28.10.06

Basta pensar em sentir




Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.


Fernando Pessoa, 14-6-1932

Imagem: Jean Michel Basquiat

25.10.06

Fragmentos


O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que eu estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disse. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.
Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.

e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com os olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionando nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos ascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.

Raduan Nassar em Lavoura Arcaica

Ela sorriu com a dentadura antiga, em que as gengivas eram de qualquer tonalidade menos de carne e os dentes alvares como dentes jamais usados. Despindo-se, eis que se persignava - "Deus louvado, tenho a minha velha, eu que não mereço a última das mulheres, nenhuma é suficientemente indigna para mim” - enquanto ela, com a mão na bola da maçaneta, o que a fazia mais desejável, assim quisera fugir-lhe antes que a pudesse ter, espiava-o a despir-se com inesperada pressa, pendurando o paletó no prego que ela indicou atrás da porta, estendendo a calça e a camisa ao pé da cama. Já descartava o sapato, e somente então - ainda se recusando como se nunca fosse ganhá-la - a velha murmurou em voz baixa, onde percebeu acento estrangeiro: - Já volto, nón?“

Dalton Trevisan em A velha querida

A nossa noite ontem à tarde foi a manhã por que esperávamos.

David Mourão Ferreira em Manhã

Imagem: Max Ernst

Branco




Sei lá se dói. Sangra. Desta vez, sem cicatrizes, superficial demais. Marca vermelha de poucos dias. Depois, nada. Tem gosto de nada por mais que eu lamba a ferida, tem gosto de nada. Houve outras mais ácidas. Houve outras? Sei lá. Anestesia, ausência de sensação. É isso. Com certeza. Maior que a ferida é a marca da agulha. E isso é que dói. Bupivacaína das mentiras. Benzocaína de desencontros. Lidocaína da enrolação. Com tanto furo não há espaço pra dor. Sei lá se dói. Sangra? Pas rouge. C'est blanc. Comme la mort.

Imagem: Ivan Serpa

24.10.06

Poema com putas - Marçal Aquino



Ontem
morreu a puta mais velha da vila.


Tinha cabelos brancos,
um dente de ouro
e uma foto adolescente.
Nunca reclamou do tempo,
do governo
e do preço das coisas.
Mas, desconfio, tinha desertos dentro de si.


Foi vista um dia
Olhando uma nuvem.

Gostava de um vestido vermelho
que nem lhe servia mais.


Quando ela morreu
dois negrinhos barrigudos
olhavam o incêndio
num monte de lixo.

Dizem que foi a paixão
de um importante político nos anos 40.
Teve jóias,
roupa nova,
convite pra festas
e pneumonia.
Sobraram-lhe as rugas:
michê de fim de expediente.
Votou em Getúlio
e sempre respeitou a sexta-feira santa .


Paixão ela teve duas
Um manco de bigodinho
e um outro que voltou pro Norte.
O esmalte no dedão descascava
Como descascam certos dias e a gente não vê.


Morreu só a puta mais velha da vila.
Um cara perguntou se ela era feliz.
Outro, por que não casou.
E ela sabia que um domingo
rodeada de netos no subúrbio
é também uma prisão.

Preferiu a cerveja morna
e o São Jorge sobre a cômoda.


Morreu velha essa puta na vila.
Sem saber a idade ao certo
mas dos setenta chegou perto.

Morreu numa tarde anônima
com criança olhando incêndio
e cachorro magro passeando na vila.


Tarde comum com tédio de vestido vermelho e de varal de vila.
O mesmo tédio de que é feita a fúria da primavera e a esperança das putas.



Marçal Aquino, 1958, paulista, jornalista. Autor de: O amor e outros objetos pontiagudos, Faroestes, Famílias terrivelmente felizes (antologia), O invasor, Cabeça a prêmio. Roteirista dos filmes: Os matadores, Ação entre amigos, O invasor e Nina.

Imagem: Leonor Fini