13.10.06

Melhores letras

Tiro na Nuca - Alexandre Abud - São Paulo

Conclusão
Na verdade a vida é como uma festa a fantasia onde todos estão vestidos de pinto e você é o único fantasiado de bunda.

Branco Leone - Branco Leone - São Paulo
Auau
Outro dia, fui chamado de vira-lata depois de dizer o que pensava sobre a consciência política desta que alcunhei de "pátria de dementes". Hoje, vejo a lista dos deputados mais votados pelo meu estado: Paulo Maluf, Celso Russomano, Clodovil Hernandez e Enéas Carneiro; Fernando Collor de Mello é senador por Alagoas; Wagner Montes é deputado pelo Rio de Janeiro.Antes vira-lata. Antes vira-lata do que ser perdulário a ponto de desperdiçar a única chance de conserto que esse país teria, caso soubesse escolher Legislativos decentes. Antes vira-lata do que desmemoriado, brincalhão, irresponsável. Antes vira-lata do que imbecil.
Um anjo pornográfico - Márcio Benjamin - Natal
Desejo
Só em pensamento somos verdadeiramente livres.
Caminhando em silêncio - B.V. - Campinas
Oceânica
Fui estrela. Como um desses pequenos milagres os quais a tola razão ignora, percorri secretamente o céu escuro durante a sua madrugada. Vi estrelas cadentes derramando suspiros sobre seu adormecer, enquanto serenava segredos em seus sonhos. Já não era eu ou cintilante, eram pequenas faíscas de uma devoção calada. E por transbordar você, fui Lua.
Casa de Paragens - Rubens da Cunha - Joinville
Romântico
amar alto
só me coube
num passado distante
quando eu era outro
o amor vinha da noite
trazia-me lágrimas e subornos
armava campanas em mim
eu sabia e deixava
Não mate o mensageiro - Fábio Pinheiro - Salvador
Mensagens em garrafas com destino preciso
ninguém é mais que a espera
num porto de partida
ninguém é mais que o anzol
entre o peixe e a isca
no lamarão que bordeja
entre o gôzo e o ataúde
ninguém é mais que uma vida
entre a gávea e a quilha
ninguém é mais que uma ilha
Mariza Lourenço - Mariza Lourenço - Curitiba
todo mês
sangro.
todo mês sinto a dor do terceiro filho.
aquele que não pari.
há muito ele finge que vem, mas é fingimento que dura o tempo exato da próxima dor.
no próximo mês.

12.10.06

Escada




Nada era-lhe mais familiar do que aqueles passos subindo a escada.

O ritmo nos degraus, descansando de 3 em 3, o chaveiro arranhando o corrimão, a respiração tão mais ofegante quanto mais se aproximava.

A dela e a dele.

Ofegante, mais uma vez abriria a porta. A porta que jurara manter cerrada, encerrando nas dobradiças desdobradas esperas, redobradas perdas . A morte de tanta vida.

Desde os tempos dos pudores, dos ritos dos lençóis trocados, da mesa posta, sem ponteiros que arauteassem a chegada.

Chegava apenas, apenas chegava como se fora dono e senhor e só era dono do silêncio com que lhe falava enquanto suas mãos grossas e suadas lhe arrancavam a roupa, enquanto seus lábios grossos e secos lhe procuravam o pescoço, os seios, o ventre e todos os segredos do silêncio que marejava de seus olhos feito lágrimas, mas que eram apenas um grito contido de fera acuada que trazia os chinelos, que coava café fresco.

Foi primeiro a campanhia, um sussurro de vocâ tá aí, esqueci a chave, uma batida ligeira com os nós dos dedos, um murro, um chute, um palavrão.

E nada pareceu-lhe mais familiar do que aqueles passos descendo a escada.

Imagem: Keith Levi

9.10.06

Para "resolver" um grande amor




Em algum momento deixaram de se olhar e os olhos dele abriram-se à pressa de novos olhares, e os olhos dela fecharam-se a espera de antigos olhares. Desentrelaçados os dedos, as palmas de suas mãos deslizaram mansas. As dele abriram-se ao encontro de novos afagos, as dela fecharam-se resguardando antigas carícias.
Em algum instante todas as palavras acenavam com lenços brancos, todos os suspiros eram gemidos, todo o amor era uma mancha de porra no lençol.
No segundo em que vive o bater dos cílios numa piscada, ele abriu-se pra vida e ela queimou um bequi, entornou meia garrafa de tequila e dançou nua pro vizinho da frente.
Imagem: Salvador Dali