31.10.06

"O que é que a gente não faz por amor?"*



É, o porteiro me entregou o telegrama, liguei pra sua mãe, ela disse que a situação tinha melhorado. A velha está bastante resfriada, afônica e tosse sem parar.Lembra daquele xarope caseiro que a Teresa fazia, lembra? Colhia o agrião na horta do fundo do quintal. Construíram um espigão naquele terreno de trás e a horta foi pro brejo.
Sua mãe me contou que a Kika pariu. Imagina, oito filhotes de uma vez, a pobrezinha. Até hoje ela late quando escuta o Frank Sinatra. Não, André, a Kika late, embora sua mãe pudesse fazer isso muito bem. Pediu licença várias vezes para ver se tinha algum filhote fora das tetas. Bem a cara dela. Até hoje ela acha que você está pendurado nas muxibas velhas, ô velha filha da puta.
É, meu filho, quem sai aos seus não degenera.
Espera, não desliga, ainda não terminei. Não disse ainda o motivo dessa ligação. A porra do telegrama. Que merda, André, você pensa que eu cago dinheiro?
Sei.
Mas é mesmo, reconheça ao menos uma vez na vida.
Porra André, que saco.
Ligasse a cobrar, cacete. Telegrama? puta merda, André, a gente recebe telegrama e, se não estiver casando, só pensa em desgraça, é que nem telefonema no meio da madrugada.
Eu sei, porra, mas o quê você quer que eu faça? De o cu na zona? Num ta valendo nada, não, você já gastou as minhas pregas. Que isso o quê? Falo sim, falo quanto eu quiser, não sou uma maquininha eletrônica de esquina onde você enfia e saca, enfia e saca, enfia e saca.
Pára, cacete.
Vai falar putaria pra tua mãe. Ou pras vagabundas que você deve estar fodendo aí nesse fim de mundo.
Quem? Eu?
Vai mentir pra puta que te pariu.
Tá, desculpe. Lembro. Foi em Cabo Frio, carnaval de mil novecentos e antigamente. Sarongue, pareô , sei lá o nome daquela porra. Claro que lembro. Eu nunca tinha ido à praia de madrugada. Entrado na água pelada. Chupado pau salgado, com gosto de mar...
Ai, André, que loucura...
Eu também, muita.
Também te amo, repete o número da sua conta, vou depositar.

*verso da canção Bem que se quis, de Pino Donatello, versão de Nelson Motta, gravada por Marisa Monte

Imagem: Max Ernst

8 Comments:

Blogger V.B. said...

A imagem da velha latindo enquanto ouve Frank Sinatra é ótima!

12:58  
Anonymous Alex said...

Hahahaha!
Perfeito, diálogo lindo, e que amor é esse hein? Hum... fiquei curioso. Conta mais!!! hehe ;)

15:10  
Anonymous Anne'Marie said...

Gostei muito do texto, o que não fazemos quando amamos, não é? Lembrei-me de Nelson Rodrigues. Tenha um feriado gostoso, repleto de alegria de viver, tempo para brincar e tempo para descansar. Beijo e um abraço bem apertado da mais nova amiga.

22:10  
Anonymous M.S. said...

Roro, abusada!!!

08:40  
Anonymous Anônimo said...

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23:07  
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Anonymous Anônimo said...

Hi.. good topic... respect


























11:44  

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