25.10.06

Fragmentos


O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que eu estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disse. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro.
Clarice Lispector em A paixão segundo G.H.

e, circunstancialmente, entre posturas mais urgentes, cada um deve sentar-se num banco, plantar um dos pés no chão, curvar a espinha, fincar o cotovelo do braço no joelho, e, depois, na altura do queixo, apoiar a cabeça no dorso da mão, e com os olhos amenos assistir ao movimento do sol e das chuvas e dos ventos, e com os mesmos olhos amenos assistir à manipulação misteriosa de outras ferramentas que o tempo habilmente emprega em suas transformações, não questionando jamais sobre seus desígnios insondáveis, sinuosos, como não se questionando nos puros planos das planícies as trilhas tortuosas, debaixo dos ascos, traçadas nos pastos pelos rebanhos: que o gado sempre vai ao poço.

Raduan Nassar em Lavoura Arcaica

Ela sorriu com a dentadura antiga, em que as gengivas eram de qualquer tonalidade menos de carne e os dentes alvares como dentes jamais usados. Despindo-se, eis que se persignava - "Deus louvado, tenho a minha velha, eu que não mereço a última das mulheres, nenhuma é suficientemente indigna para mim” - enquanto ela, com a mão na bola da maçaneta, o que a fazia mais desejável, assim quisera fugir-lhe antes que a pudesse ter, espiava-o a despir-se com inesperada pressa, pendurando o paletó no prego que ela indicou atrás da porta, estendendo a calça e a camisa ao pé da cama. Já descartava o sapato, e somente então - ainda se recusando como se nunca fosse ganhá-la - a velha murmurou em voz baixa, onde percebeu acento estrangeiro: - Já volto, nón?“

Dalton Trevisan em A velha querida

A nossa noite ontem à tarde foi a manhã por que esperávamos.

David Mourão Ferreira em Manhã

Imagem: Max Ernst

2 Comments:

Anonymous M.S. said...

Tenho aqui comigo um presente pra você. Ou, um futuro? Não ria, cachorra!!! Beijão

14:15  
Blogger V.B. said...

Acredito conseguir entender o último...

[te mandei email com um endereço diferente]

Abs

14:49  

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