Não fui eu...

Quem deu à saudade a ausência do sorriso
Quem deu à noite o medo do sono
Quem deu ao fato a cara da dor
Quem deu à paixão o gosto da vida
"Vemos as coisas não como elas são, mas como nós somos". Emanuel Kant


"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente com eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela.
Mas não disse".
Imagem: Carlos Gomes
Imagem: hugo



As águas turvas, que são a vida, levam o barco a ignorados destinos e apenas lavam o cais, extático, sem desejos de novos portos, exausto, tantos outros barcos atracaram.
Vezes há em que o cais esquece que o destino do barco é singrar a vida, vendavais e oceanos.
Há muitas vezes em que o cais sonha ser barco e partir em caravana. Mas, é só um sonho pois o cais sabe que seu destino é contemplar o horizonte e o do barco é ir em busca de.
Vezes há em que o barco aporta e o cais o acolhe, terno, na esperança vã de que ele fique tempo bastante pra dar ao cais a função de porto seguro.
Ele, o barco. Ela, o cais.
E gloriosos são os dias em que o sente ancorado, tão próximo, e se esquece que seu tempo de soltar as amarras, levantar âncora, há de chegar como chegam as estações.

Ameaça de sol por dentre as nuvens que há pouco despencavam em aguaceiros. Anuncia-se o crepúsculo, misterioso instante em que o dia deixa de ser dia e a noite ainda não é. Tempo parado na expectativa do que virá com a escuridão. Hora em que me sinto frágil, ansiosa, temendo os sonhos que a noite trará. Ou não. Hora em que a saudade cresce junto com a vontade de dividir afagos e ternura em macios lençóis de algodão, perfumados com o suor de todas as carícias. Vontade de contar casos no lusco-fusco, rir da vida banal, cócegas e farelos pinicando a pele que anseia por arrepios sob o toque delicado de seus dedos furiosos. Vontade de te fazer acreditar que "podes ficar de olhos abertos sobre o meu peito" pois que meu abraço é forte o bastante pra espantar o bicho papão. Vontade de sono tranqüilo, de mãos dadas, pernas entrelaçadas e pés descalços na cozinha, buscando água na madrugada...Vontade de que no sorriso despertado haja tesão bastante pra reinventar a noite, o amor, a vida. Um amor pra toda a vida, ainda que a vida toda dure uma noite.


Eu quero que você me ame
Que você me chame quando precisar
Eu quero saber ir embora
Sem ter dia ou hora pra poder voltar
Eu quero ter a vida inteira
Pra fazer besteira e você perdoar
O que eu sei hoje da vida
Até Deus duvida e eu vou te ensinar
Eu sei dizer tudo que eu sinto
E até o que eu não sinto pra me disfarçar
Eu sei calar na hora exata
Eu sei que a dor não mata mas pode marcar
Eu sei traçar a minha meta
Ninguém é poeta só por saber rimar
E por falar em poesia
Vai raiar um dia em que vou te buscar
Eu quero juro de verdade
Que toda cidade veja eu te levar
Por todos os meus descaminhos
Somos tão sozinhos que o melhor mesmo é se dar
Eu quero que você se dane
E mesmo que eu te engane
É assim que eu sei te amar.
*Compositor. Jornalista. Filho de Jacob do Bandolim, cresceu cercado pelas rodas de choro de seu pai e de seus grandes amigos chorões. Aos 18 anos, saiu da casa dos pais. Lutou desde a infância contra as seqüelas da hemofilia. Faleceu aos 38 anos de um enfarte.
Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira
Imagem:Dream Catcher

Acontece de repente. Batem portas e janelas, bailam as cortinas, despencam os sorrisos postos em molduras. E tudo escurece. Desaba feito catarata, inunda e alaga. Esconde a gente que se esconde da gente. Medo. Acorda o sentimento de pequinhêz e solidão. Inutilidade passiva. Saudade do sol de outro dia.
Há quem o chame de temporal de verão.
Há eu, que o chamo de a sua tristeza.
Imagem:Hugo


