29.1.07

Não fui eu...


Quem deu à vida o gosto da morte
Quem deu à morte o cheiro do eterno
Quem deu ao eterno a certeza da dúvida

Quem deu à saudade a ausência do sorriso
Quem deu ao sorriso a chegada da lágrima
Quem deu à lágrima o gosto salgado

Quem deu à noite o medo do sono
Quem deu ao sono a esperança do sonho
Quem deu ao sonho o horror do fato

Quem deu ao fato a cara da dor
Quem deu à dor a sangrenta cicatriz
Quem deu ao sangue a cor da paixão

Quem deu à paixão o gosto da vida
Quem deu à vida o cheiro do eterno
Quem deu ao eterno a certeza da dúvida
Imagem: Paulo César

28.1.07

Marçal Aquino



"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que gente com eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela.

Mas não disse".

Imagem: Carlos Gomes

23.1.07

Um conto de MIA COUTO

ISAURA PARA SEMPRE DENTRO DE MIM
Isaura entrou pelo bar como se entrasse pela última porta e nós fôssemos os deuses que a aguardássemos do outro lado. Fora ficava esse céu todo azulzinado, os zunzuns da gente no bazar.
A aparição da mulher fez estancar meu coração, suspenso na rédea do espanto. Escutei íntimos desacordes, sangue para um lado, veias para outro. É que eu não via a Isaurinha há mais de vinte anos, mais de metade do tempo que eu amealhava existências.
De repente, me chegaram lembranças como se em meu peito desembarcassem imagens e sons, atropelando-se em desordem. Foi no tempo colonial. Eu e a Isaurinha éramos empregados domésticos na mesma casa. Ela empregada de dentro, eu de fora. Ambos, miúdos, em idade mais de brincar. Aos fins da tarde, quando ela despegava me vinha contar as novidades, segredos da vida dos brancos.
Era hora de eu passear a cãozoada. Ela me acompanhava, rodávamos pelos quarteirões enquanto ela me fazia rir, com as suas revelações. Que o patrão a empurrava nos cantos sombrios e a apertava de encontro às paredes. Não havia parede em que ele, de pé, não tivesse deitado. Tudo aquilo lhe dava nojeira, reviragem nas vísceras. Queixar a quem? A Deus? Eu sonhava que me subiam coragens e enfrentava o patrão. Mas adormecia sem ousadia sequer de terminar o sonho.
E agora Isaura interrompia o meu tempo de existir, rompante adentro da cervejaria.
Estava quase na mesma, o tempo não a redesenhara. Magra, como sempre fora. Olhos acesos como réstias de brasa. Em seus dedos um cigarro me sacudiu lembranças. Como se o centro de minha memória fosse um fumo.
Sim, o fumo de cigarro que ela, vinte anos antes, trazia de dentro da casa dos patrões para as traseiras onde eu a esperava. Fazia o seguinte pegava a beata distraída num cinzeiro de salão e chupava umas boas passas. Enchia as bochechas de fumo vinha ter comigo ao pátio. Ganhava um ar apalhaçado, com dupla cara como a coruja. Chegava-se a mim e vizinhávamo-nos, cara com cara. Depois, boca com boca, os lábios meus em concha recebiam os dela. Isaura soprava para dentro de mim esse fumo. Sentia aquecer-me meus interiores, a saliva quase fervendo. Depois, não era só a boca todo o meu corpo se ia esquentando.
Era assim que fumávamos, a meio hálito, boca de um cruzamento e peito do outro. Praticávamos o quê? Fumigação boca-a-boca? Uma coisa era de certeza meu endereço era o céu, nesses instantes. Isaura me exaltava eternidades, lábios vaporosos me roçando o coração. Tudo ali na cubata das traseiras. Simples procedimento aquele Isaura aparava as unhas dos cigarrinhos, beatas ainda moribundas. Não parecia que Isaura deitasse valor naquele trocar de lábios. Ela gostava mesmo era de tabaco, pouco a pouco se adentrando no vício das fumagens. Eu e a descarga suja em meus pulmões eram simples acidentes sem percurso.
Até que, certa vez, o patrão nos surpreendeu naquelas disposições. Choveram insultos, imediatas pancadas. E logo eu, desculpando Isaura, assumi as inteiras culpas. Construí a versão eu a tinha assaltado, obrigado contra as suas vontades. Nesse mesmo dia, fui expulso, despedido. Nem me despedi de Isaurinha. Levei meus pertences, por baixo de uma lua tristonha. E nunca mais Isaura, nunca mais notícias dela.
Vinte anos depois, Isaura desarrumava a tarde, interrompendo o bar. Para mais, ela trazia entre os dedos um cigarro, fumejante.
Ela se sentou em minha mesa e, sem me olhar, desatou as falas. Tanta lembrança boa. Mas a favorita é você, Raimundano. Lhe digo esse fumo todo que lhe deitei sabe o que eu queria, só mais nada? Era um beijo. Estremeci. Aquilo era a justa navalha, me lacerando?
Mas ela seguia, no avanço de seus ditos. Sim, que ela em tempos, me amara. Nunca mostrara aquele querer dela, por motivo de decências. É que era tão magra que era má educação se exibir. Que ela escolhia para mim suas melhores belezas, como quem tem prendas mas não sabe nem a quem dar.
- Porquê, Isaura? Porque nunca me procurou? - Porque lhe deixei de amar. Foi aquele sua mentira para me proteger. Isso, me fez muito mal. Desde o momento que eu a defendera, o sentimento tombara, sobra de sombra. Ofensa de quê? Nunca saberei.
Isaura, ali sentada, não me explicaria nada. Como se tivesse passado não o tempo, mas a vida inteira. Levantou-se, arrastou a cadeira como se arrumar os móveis fosse mais importante neste mundo. E se dirigiu para a saída, a angústia me resumindo como se, pela segunda vez, minha vida se ecoasse por aquela porta. Minha voz, nem a reconheci -Sopre-me outra vez um fumo, Isaura. Um fuminho, só.
Ela me olhou, os olhos tão longe que parecia nem ter focagem. Aspirou fundo o cigarro, refreou umas tosses e veio em minha renteza. Quando ela colou seus lábios em mim, se fabulou o seguinte: a mulher se converteu em fumo e se desvaneceu. Primeiro no ar e, depois, lento, na aspiração de meu peito.
Nessa tarde, eu fumei Isaurinha.
Mia Couto, Moçambique, 1955

Imagem: hugo


19.1.07

Ballet




Ensaiei todos os passos de uma coreografia de adeus. E me vi em piruetas sobre a dor de te não ter. Mas, meu amor tem pés de chumbo. E enquanto sua loucura reger a orquestra desta dança, eu fico. No solo.
Qualquer dia será um pas-de-deux.

Uma carta...





Algum lugar, algum dia, algum ano

Meu ...

(o possessivo talvez fosse indevido se avaliado fosse que ninguém pertence a ninguém que não a si mesmo.Mas de ninguém era ele mais querido que dela que pra ele, e só pra ele, guardara a palavra nunca antes dita a nenhum mais ninguém...)

Querido

(e guardara esta palavra a vida toda com o cuidados de quem cultiva um bonsai. Talvez por ser pequena. Por parecer frágil. Por necessitar de luz e vento, espaço e vida . Querido é o que se quer e o que se quer vai além do que se deseja. O que se quer é pra sempre, o que se deseja é satisfação imediata)


Meu querido

(ao escrever percebeu que lágrimas fizeram do papel um oceano onde sua mão errante era barco à deriva, navegando sem porto que lhe acenasse um abraço, sem norte e sem bússula e foda-se o Pessoa que achava que navegar é preciso, o que havia de precisão, de rumo, de certeza naquele mar onde a saudade era tempestade? E que assim ficasse para sempre. Só isso e tudo isso:

Meu querido

6.1.07

Arco-íris


Violeta abriu a janela depois do temporal. O cheiro da terra molhada prometia futuras colheitas, se futuro houvesse. Ou tempo de semeadura. Se sementes tivessem sido reais.

Roxa de saudade, seguiu com o olhar as pegadas que iam da porta ao portão, traçando um caminho sem volta.

Azul era a lágrima que lhe esquiou pelo rosto e capotou na curva dos seios, em meio às marcas azuis que o mais devasso afeto ali deixara.

Verde esperança brotava no canteiro de amor-perfeito feito erva daninha. Talvez chovesse à tarde e a chuva lavasse as marcas dos passos que foram. Apagasse a lembrança do que já não era.

Amarelou e o medo da manhã que vinha a galope, anunciando o dia vazio, arrepiou os pelos de seus braços. Sentiu frio. Era o vento. E ele balançava as cortinas, lenços em cerimônia de nunca mais.

Laranja azeda, gosto das lágrimas, suco espremido da vida de tantas noites.

Seu grito de dor contida rompeu a aurora, riscou o céu emudecendo os galos que prenunciavam a manhã, traçando um arco no céu da sua boca. Com gosto de sangue.

Vermelho.

14.12.06

O barco e o cais




As águas turvas, que são a vida, levam o barco a ignorados destinos e apenas lavam o cais, extático, sem desejos de novos portos, exausto, tantos outros barcos atracaram.


Vezes há em que o cais esquece que o destino do barco é singrar a vida, vendavais e oceanos.


Há muitas vezes em que o cais sonha ser barco e partir em caravana. Mas, é só um sonho pois o cais sabe que seu destino é contemplar o horizonte e o do barco é ir em busca de.


Vezes há em que o barco aporta e o cais o acolhe, terno, na esperança vã de que ele fique tempo bastante pra dar ao cais a função de porto seguro.


Ele, o barco. Ela, o cais.


E gloriosos são os dias em que o sente ancorado, tão próximo, e se esquece que seu tempo de soltar as amarras, levantar âncora, há de chegar como chegam as estações.

13.12.06

Do medo e da noite




Ameaça de sol por dentre as nuvens que há pouco despencavam em aguaceiros. Anuncia-se o crepúsculo, misterioso instante em que o dia deixa de ser dia e a noite ainda não é. Tempo parado na expectativa do que virá com a escuridão. Hora em que me sinto frágil, ansiosa, temendo os sonhos que a noite trará. Ou não. Hora em que a saudade cresce junto com a vontade de dividir afagos e ternura em macios lençóis de algodão, perfumados com o suor de todas as carícias. Vontade de contar casos no lusco-fusco, rir da vida banal, cócegas e farelos pinicando a pele que anseia por arrepios sob o toque delicado de seus dedos furiosos. Vontade de te fazer acreditar que "podes ficar de olhos abertos sobre o meu peito" pois que meu abraço é forte o bastante pra espantar o bicho papão. Vontade de sono tranqüilo, de mãos dadas, pernas entrelaçadas e pés descalços na cozinha, buscando água na madrugada...Vontade de que no sorriso despertado haja tesão bastante pra reinventar a noite, o amor, a vida. Um amor pra toda a vida, ainda que a vida toda dure uma noite.

28.11.06

Meus sonhos





Meus sonhos são navalhas que rasgam a pele negra da noite.
Sangram estrelas.
Meus sonhos são caravelas que rompem a pele negra da noite.
Singram cometas.
Meus sonhos são espelhos que refletem a pele negra da noite.
Seguem sombras.
Sombras de estrelas e cometas.
Negra é a pele da noite sem sonhos.


Imagem: Eberhardt

27.11.06

Eu Quero - Sérgio Bittencourt (1941-1979)





Eu quero que você me ame
Que você me chame quando precisar
Eu quero saber ir embora
Sem ter dia ou hora pra poder voltar
Eu quero ter a vida inteira
Pra fazer besteira e você perdoar


O que eu sei hoje da vida
Até Deus duvida e eu vou te ensinar
Eu sei dizer tudo que eu sinto
E até o que eu não sinto pra me disfarçar
Eu sei calar na hora exata
Eu sei que a dor não mata mas pode marcar


Eu sei traçar a minha meta
Ninguém é poeta só por saber rimar
E por falar em poesia
Vai raiar um dia em que vou te buscar
Eu quero juro de verdade
Que toda cidade veja eu te levar
Por todos os meus descaminhos
Somos tão sozinhos que o melhor mesmo é se dar


Eu quero que você se dane
E mesmo que eu te engane
É assim que eu sei te amar.

*Compositor. Jornalista. Filho de Jacob do Bandolim, cresceu cercado pelas rodas de choro de seu pai e de seus grandes amigos chorões. Aos 18 anos, saiu da casa dos pais. Lutou desde a infância contra as seqüelas da hemofilia. Faleceu aos 38 anos de um enfarte.

Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira

Imagem:Dream Catcher

23.11.06

O nome das coisas




Acontece de repente. Batem portas e janelas, bailam as cortinas, despencam os sorrisos postos em molduras. E tudo escurece. Desaba feito catarata, inunda e alaga. Esconde a gente que se esconde da gente. Medo. Acorda o sentimento de pequinhêz e solidão. Inutilidade passiva. Saudade do sol de outro dia.
Há quem o chame de temporal de verão.

Há eu, que o chamo de a sua tristeza.

Imagem:Hugo

20.11.06

O corpo


Estranha máquina que se lubrificada pela intensidade de líquidos que nascem de seus dedos, bate descompassada ao encontro de seus desejos.
Estranha máquina que se tocada pela intesidade de seus desejos se lubrifica ao encontro de seus dedos, descompensada sendo sabor de pecado em sua língua.
Estranha máquina posta em repouso no silêncio de seu sono, acelerada na sinfonia de meus sonhos.
Estranha máquina, que a qualquer toque se recusa que não o das melodias que você, maestro dos meus desvarios, faz vibrar em acordes dissonantes.
Estranha máquina de gerar saudade, parir paixão e criar todo esse tanto amor.
E é nela que guardo e resguardo coração e buceta .
Você.

17.11.06

Happy hour


E ele estava ali, de costas, no balcão do bar, a cabeça meio inclinada na direção do copo. Nenhum espelho que a ela devolvesse a lembrança dos olhos dele , do sorriso, da barba talvez já crescida àquela hora.
Ele estava a li e a esperava.
Falariam de arrependimento e perdão, ciúme e mentiras. No mesmo bar onde ela lhe dissera que deixasse a chave sob o vaso de comigo-ninguém-pode, enquanto seus lábios sangravam a cereja do martini doce.
Sentada no canto escuro das lembranças, viu quando ele terminou a bebida. E pediu outra, e mais outra. Pagou a conta. Guardou o troco. Olhou, mais uma vez, o relógio. Atravessou o bar sem vê-la, em direção a chuva que encharcava a pressa das pessoas. Abriu a porta para a definitiva ausência quando um caroço de azeitona acertou-lhe a nuca .
Ela aprendera a gostar de Martini seco.

3.11.06

"O Rio de Janeiro continua lindo..."

...e eu vou lá matar a saudade da minha cidade, da minha gente, da minha vida ... até de repente!

2.11.06

Calaveras


Sua sombra, toda feita de luar e vendaval, abraçou a sombra minha.
Restos de estrelas tentavam iluminar minhas saudades de você.
Sombras e restos.
Sobras e rastros.
De negror iluminado se fez a noite da ausência.

No México não se chora pelos mortos. Os "muertitos" chegam no dia primeiro de novembro e podem passar um dia com os parentes vivos. São buscados nos cemitérios e guiados até as antigas casas por caminhos de pétalas e luzes e lanternas de velas. Os pratos prediletos, os enfeites, os aromas, os jogos e até os vícios do morto são lembrados nesta data. Uma alegre celebração da vida.

Imagem: Renan